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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

(...) que pelo menos tenha sido em busca do amor!



Catrina estava ainda sonolenta, meu senhor, ela olhava para o teto agraciando-se com o movimento das suas mãos que tentavam acompanhar alguma música infantil que se instalara subitamente em sua mente contaminada pelo efeito do álcool.

Ela ainda era jovem, nobre colega, não havia muitas marcas peculiares do tempo em seu corpo, entretanto, em sua alma que outrora fora doce e frágil, cultivava raízes de lamentações provenientes dos momentos tortuosos que a vida ajudou a compor.

Diante das inúmeras paixões fugazes que arrancam as carnes do seu âmago e dilaceram sua alma, Catrina havia criado uma zona de romances etéreos. Entretanto, existia alguns questionamentos:  Há algum modo de se fazer presente na vida do outro ante a ausência de sentimentos?! E, talvez, elevar a um status surreal o seu próprio existir?!

Catrina acreditava que sim e, por isso, tentava esquivar-se das novas nuances do mundo.

Mas em cada esquina há maquiagens borradas e corações vazios. Sem amor, ou afeto. A carícia por vezes mais soa falsa do que verdadeira. Sendo mais uma noite tão esquecida quanto qualquer aceno perdido entre demais gestos.

Por todo sentimento depositado nas paixões escarlates, nos amores derramados e extasiados em si mesmo. Pelos hinos e canções apaixonadas, da sensação de regresso e repentina.  Catrina derramou a sua bebida nos escombros e destroços desse plácido momento que se foi antes do prenúncio e disse para si:

“Pelo amor e por amor! E mesmo que o amor não exista que pelo menos tenha sido em busca dele.”

Catrina então voltou a dormir, Senhor. E parece que havia um sorriso ilógico entre seus lábios. 

domingo, 16 de agosto de 2015

Aline e a sua forma de amar.




Henri de Toulouse-Lautrec: The Bed, 1897.


                     Já era uma da madruga e Aline percorria pelas ruas da cidade procurando por alguém que pudesse pagar por horas de amor vazio com o seu corpo. Impossível suspirar ternura em seus dias atuais. Só restava, então, seguir pelas linhas dos seus instintos primitivos na busca de algo que completasse a sua essência. 
               Diante de tal impasse ela pediu ao primeiro que passou, em um gesto singelo, acender o seu cigarro e, com o seu famoso olhar promíscuo e a boca recheada de um batom vermelho barato, lançou-lhe as mais diferentes propostas. Não contente, ainda ofereceu o preço do seu amor com algum desconto na intenção de lucrar algo no dia. Conseguiu. 
                 Usando uma saia látex, decote vertiginoso e salto alto enlaçou-se ao mais novo parceiro e seguiu para o hotel mais próximo do seu ambiente de trabalho. O cheiro de mijo impregnado nas ruas se misturava com seu perfume francês e ao sabor da pastilha de hortelã que casualmente ganhara. Aline estava pronta para se entregar, render-se a mais uma nova-velha sensação. Não havia como parar, seu ofício lhe aprazia e a moral inconveniente desaparecia principalmente quando recebia o valor combinado.
               Se o fim justifica o meio, para ela tudo se encaixava como o resultado de uma cálculo matemático simples. Sem rodeios. Apenas como um método. Não importa se era, para o seu parceiro: Ana, Jéssica, Alice... O que importava era a fantasia vivida como forma de dissipar uma possível angústia ao sentir algum corpo vivo perto do seu. Com o intuito de não se perder em pensamentos considerados vulgares, ela tomava um gole de vodca e retocava o batom toda vez que isso acontecia. 
                  Aline ainda não sabia se o amor ou a vida eram apropriados para si. Simplesmente desejosa de se encontrar ou encontrar um mundo melhor apelou pelos meios mais práticos de saciar seus anseios. Não importava quantas palavras lhe cuspissem ou o quanto de dinheiro recebia ou deixava de receber, só pararia quando encontrasse alguma resposta para o que não se completava como um mero cálculo matemático.


domingo, 19 de julho de 2015

Conto: Rotina Matinal.



      Limpou o rosto na tentativa de retirar os resíduos do dia anterior. Nesse breve instante colocou as mãos na pia do banheiro com o intuito de melhorar a sua disposição, pois, sua mente parecia esmaecer. Pensamentos após tal ação começaram a borbulhar e o mais persistente foi: O que eu fiz comigo mesma? Bem... Isso já não era mais importante tendo em vista a necessidade da meta diária ser cumprida. 

Segunda: Chegar ao trabalho, fazer o serviço e voltar para casa
Terça: Chegar ao trabalho, fazer o serviço e voltar para casa
Quarta: Chegar ao trabalho, fazer o serviço e voltar para casa
Quinta: Chegar ao trabalho, fazer o serviço e voltar para casa
Sexta: Chegar ao trabalho, fazer o serviço e voltar para casa   

      Para a realização de tal feito Gabriela compôs sistematicamente algumas etapas a serem cumpridas diariamente. Embora os seus desejos e pensamentos variassem conforme o humor, mantinha a rotina e suas etapas com bastante afinco. Sua mente, apesar de jovem, falhava e já não abria brechas para os sonhos antigos, a roda da vida girava, girava e continuava girando. 
      Ainda no banheiro, em frente aquele reflexo desconhecido, notou pequenas marcas que anteontem não existiam. E, nessa análise sem fundamento, mais um segundo se foi. 
Molhou o seu rosto cansado novamente e o secou com o intuito de que tudo mudasse, mas apenas secou o que havia de secar e continuou. O que ela sentia já não mais a pertencia, não sabia distinguir o mínimo do macro e com que intensidade os seus atos nessa vida influenciavam o universo.

     - Se há um feedback o que seria o meu ser diante dessa micro existência banhado por um sistema confuso do qual eu, tecnicamente, não dito as regras do jogo, nem de grande parte da minha vida?

       Apenas prosseguiu.  

      Foi à cozinha, tomou um café  e refletiu mais um pouco a respeito da sua singela existência e sobre os seus amores passados. - Tudo não passa de um redemoinho, um mar de sonhos. Um exímio misto de realidade e onirismo onde os três tempos brincam interminentemente. Notou que já não havia mais nenhum líquido na xícara.

     Com o intuito de completar a terceira etapa do seu método encontrou algo para usar, qualquer coisa fácil e que combinasse com o seu humor volúvel ou não. Caminhou alguns passos até a sua porta, depois ao seu portão.

      Fechou a si mesma e se foi.




terça-feira, 4 de junho de 2013

Carta ao amigo - Roberta Melo




Prezado amigo,



   Era claro que já não havia mais tempo para continuar a sonhar, cantar ou usufruir daquela vida que dantes parecia recheada de surpresas e novidades. Já se passou quase 10 anos desde a primeira vez que dei o primeiro beijo e senti as famosas borboletas na barriga. Sonhos que foram previstos para serem concretizados depois desses mesmos 10 anos,... Noto que nada ou muito pouco restou deles. 

  Essa vida transformada em tonalidades frias e inertes toma conta da atmosfera e o passado, anteriormente visto em tons alegres e com gosto de arco-íris, ficou por lá. As novas descobertas são marcadas pela apatia e tédio, e estes, já não me angustiam da mesma forma de como quando era adolescente. Lembro também de como me tornei tão serena ao encarar os momentos agressivos da vida pública, onde, em momentos de infância, acreditava que aquilo era uma coisa dos adultos e nessa leva de hormônios indo e vindo, percebo que me tornei um e que nada está no meu controle; nem o meu país, nem mundo.

   Mentiras e palavras vazias são esfregadas em nossa vida dia após dia, ano após ano nos transformando exatamente nisso, em robôs. Nem todo livro lido, nem toda aventura desejada e nem as ideias de mudança conseguiram modificar a sociedade. Vejo que isso apenas serviu para construir o meu eu e para tornar tal habilidade, quem sabe, em uma forma gradativa de conseguir dinheiro. Pessoa programada para perder o sorriso, ser pai e ser mãe ao mesmo tempo, induzida a ter uma religião e, posteriormente, a pisar nela diariamente, pois, mesmo querendo construir um céu mais amplo, a vida nos leva a ver e fazer coisas cruéis. 

   Vivemos a comer nossa própria língua, a beber o nosso próprio veneno, a achar comum roubo e a indisciplina, tendo o amoral como direção a ser seguida. Pois é meu amigo, ensinam-nos a ter tudo ou nada, mas, que no final, recebemos a mesma dor, o mesmo medo. 

   O não cumprimento da lei liberou a onda anárquica no mundo político no qual tudo é possível e os pobres, como sempre, ficam longe do sonho e aptos somente para seguir uma doutrina inexistente. 

   Hoje, caminhando na calçada como já fazia em outras tardes, essa nobre personagem desatou em lágrimas.

Atenciosamente, 
A Pessoa

P.S. Lembre-se de entregar jabá ao rei!

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Nem seu choro, nem sua reza. - Roberta Melo


Na fúria, saiu apressada e sem pensar de maneira coerente sobre o que lhe acontecia. Havia um sabor opaco em si. Suas pernas estremeciam. Estava entre devaneios... 
Nossa personagem guardava sempre o melhor de si para os outros e, na penumbra, renunciava aos seus mais sutis desejos. De renúncia em renúncia; castrou-se. Sua boca que antes cantavam versos sobre a aurora foi ganhando o hábito de lentamente emudecer. Falava miudinho, falava para si. Quando imaginava sair alguma voz, era apenas sua alma ou mente conversando consigo mesma. Imaginava que os outros a escutava. Imaginava que tudo o que era dito transformava-se em poesia. Apenas imaginava.
Seu reflexo e sua dor eternizados na imagem que observara no espelho. Esse tempo de singela restrição vocal tornou-se propício para que mudanças sensíveis ocorressem em seu corpo. Sua boca colou-se de maneira lenta e imperceptível. Seus lábios uniram-se ao palato e, só assim, em seu reflexo, percebeu que a sua voz ecoava internamente. Queria gritar, pedir ajuda; não podia. Tornara-se sem voz, não podia chegar aos outros.
Seu corpo agora se encontrava marcado pelas linhas da vida. Nós que se entrelaçaram a sua existência, ao seu âmago. Nem seu choro, nem sua reza poderiam proporcionar a sua salvação.


                                                                                                    Roberta Melo


sábado, 22 de setembro de 2012

A tosse



      Sua tosse ecoava naquele pequeno quarto com paredes amarelas. A vontade de colocar para fora todos os órgãos e lavá-los em água corrente para, talvez assim, fazer com que esse incomodo passasse era imensa. Tossia parecendo um cachorro ou gato indefeso buscando alguma ajuda e clamando por atenção. Silêncio. Somente o som de uma doente que provavelmente não morreria, mas, que além de estragar com o seu próprio sono, atrapalhava o dos vizinhos.
    Levantou-se meio que cambaleando do seu colchão velho procurando por algo que pudesse aliviar. Tocando em todos os locais daquele cômodo sentiu a perna dele. Lembrou-se de como haviam chegado efusivos naquela noite, porém, o coitado apagou direto. Nem deu boa noite. E agora estava lá espatifado sem notar os pequenos tormentos da dona daquele quarto.
        Encontrou algumas cartelas de comprimidos que as propagandas estimulam a comprar, mas, que ninguém vê resultado algum. Talvez aquele placebo funcionasse para algo, pensou.  Tomou o remédio junto com a água que sempre deixa em sem quarto. Procurou repousar. Olhou novamente para o rapaz através da pouca iluminação que aquele local recebia do ambiente exterior. Não o imaginava tão sereno. Talvez nem recordasse do seu nome, mas, até lá seria um novo dia.  Novos pequenos problemas. E, naquele momento, esperava apenas que aquela tosse fosse embora.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Mensagens Antigas


  


 Desci as escadas lentamente para pegar o que faltava de sacolas dentro do carro. Chovia muito. Infelizmente as obras não finalizadas da área externa da casa estavam incompletas, o que tornava muito mais penoso atravessar.
   O saco plástico marcando e calejando a minha mão tornaram-se foco da minha agonia e irritação além das gotas de chuva no corpo inteiro. Eu já previa uma “maravilhosa” gripe...  Para o meu alívio era a última remessa. Fechei o carro. Refiz o trajeto; coloquei o restante das sacolas junto das outras: em grupo e encostadas na parede. Sentei no sofá. Lembrei que estava molhada o suficiente para piorar a minha saúde.
   No banheiro tentei relembrar dos momentos tristes e alegres da minha rotina, dos meus relacionamentos falhos, dos produtos que havia comprado. Qualquer filosofia de vida em pensamentos de chuveiro parece tornar-se magnífica e instantaneamente há alguma solução para todos os dilemas cotidianos. Sequei o meu cabelo, coloquei a minha roupa e rumo a mais uma aventura diária: arrumar os produtos comprados.
   Alimentos, maquiagem, utensílios domésticos e sapatos. Tudo o que estava ao meu alcance. Guardei os alimentos, a maquiagem, os utensílios domésticos e provei os sapatos. Retirei a maquiagem que tinha guardado e voltei a testar. Realmente era boa, mas o efeito na loja parecia melhor. Fiquei me olhando no espelho...
    Preparei algo para comer, mas, talvez, não estivesse com tanta fome. Busquei algo para beber, mas, não tinha tanta sede. Desejava esquecer certos “poréns”, logo, deveria ser alcoólico.
    Sento na cama e troco de canal. Troco de canal. Novamente...
    Reviro o celular ao avesso para ver as mensagens antigas. Para ler algo que demonstre carinho suficiente por mim. Lembro dos amores, ... Aih,... Os amores! Da mudança de vida; do que eu colhi e plantei para mim.
     Ainda é sábado. Talvez eu realmente não quisesse ficar em casa. Medo de me expor a essa leve solidão; receio de perceber a vida.
     Coloco alguma roupa que ofusque o meu aspecto apático e alguma maquiagem que contenha as cores perdidas do meu olhar.
      Talvez ele realmente venha me ver hoje. Disse que sentia saudades de mim... 

terça-feira, 14 de agosto de 2012

O tropeço




Corri
...
...

  Tropecei a uns 50 passos do meu curso. Havia alguns indivíduos no local. Todos olharam; os indiferentes  continuaram seus passos, outros, como de costume, soltaram gargalhadas externas e internas.
  Não há ajuda para aquele que cai; não há ajuda para aquele que almeja voar.




  Arrumei os papéis espalhados. Constrangida tentei sair o mais depressa possível daquele ambiente.
  Não olho com negatividade quem está no chão; nem ridicularizo. Sei que sou indiferente, igual a milhares de indivíduos, por isso, não desejo estar em situação de inferioridade ou bobo da corte. 
  Entendo a minha queda como resposta daquilo que me ocorre ao redor. Reconheço-me e desconheço compassadamente e percebo que minha nota quase não se modifica. 
  As risadas; as dóceis risadas permanecem em meu âmago. Vontade de martirizar igualmente.
...
Prossigo o caminho
...
...
Entristeço
...
...
Penso
...
Consolo-me
...
  Percebo que já estou em casa. Cansada; cansada principalmente de pensar em tudo que me ocorreu. Dessas insignificâncias que me corroem. Limpo minha cama e deito. Procuro dormir na esperança de que tudo se apague em meus sonhos; que um novo dia surja e que eu não busque por explicações. Desejo que alguma coisa absurda, como em uma estória de ficção, ocorra em minha vida; nessa crença infantil o sono chega.
...
...
É como ganhar na loteria se eu recordo dele posteriormente.
É com legítimo azar que as risadas permanecem em mim.


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Rumo a um novo colégio!

Quando acordamos e nos deparamos com inúmeros reverses nos perguntamos: O que somos?

Havia muito tempo que a manhã não tinha esse gostinho de questionamento sobre a percepção da vida que às vezes chega, às vezes vai... É bom para manter o equilíbrio. Mesmo que a tristeza venha acompanhada desses pensamentos.

Meu quarto está sempre em tons pasteis e bagunçado, gosto desse meu ambiente, remete a um conforto aprazível. Era manhã de domingo. Ainda bem! Nunca um dia da semana havia me deixado tão aliviada quanto esse já que, estava louca para me livrar da escola e todos aqueles momentos catastróficos que me atentaram durante a semana.

A vida não está sendo muito fácil para mim nesses dias. Há dois meses cheguei nessa cidade e sempre que se chega a um novo local existe dificuldade em criar amizades e uma facilidade imensa para inimizades mesmo que você não tenha feito absolutamente nada.

Essa mudança de rotina por veze comprime meu espírito, porém eu não posso ser emancipada agora e ainda dependo extremamente dos meus pais, você entende a minha situação? Espero que sim.

A cidade até que não é tão mal tirando o fato de ser relativamente fria, pois, eu prefiro temperaturas amenas, mas não deixa de ser melhor que o calor que fazia na penúltima cidade em quem minha mãe decidiu morar. Eu não entendo essa obsessão dela por trocas, por vezes me irrita demais. Já discutimos muito, mas sempre sou vencida, destino cruel!

Minha mãe começou essas trocas quando eu tinha aproximadamente oito anos de idade e a princípio eu não me importava, porém já tive que me despedir de inúmeras boas amizades, isso é o mais triste.

Sempre que me encontro em um espaço novo sou obrigada a fazer adaptação mesmo não aturando o comportamento das pessoas locais.

Cheguei neste novo local nas férias do meio do ano. Assim que meu semestre escolar acabou na cidade anterior estávamos com o pé na estrada. Gosto de conhecer locais diferentes, quem não gosta? Mas quando há uma imposição chega a ser cruel. Não tive nem tempo de me despedir decentemente de minhas amizades, mas nós conversamos sempre que podemos pelo Messenger, nas férias era mais frequente, só que com o início das aulas essa semana, o ritmo teve que ser diminuído. Houve um grande choque de horários entre nossas atividades.

Minha cachorrinha Patty está sempre comigo, quando me sinto solitária e melancólica ela chega para alegrar minhas tardes. Quão dócil ela é! Queria ter essa alegria imensa que ela aparenta sentir, e só ficar triste quando está doente, mas as situações tornam-se mais complexas quando se é humano.

O uniforme escolar não é muito bonito, não gosto dessa tonalidade verde, é muito berrante! Mas esse colégio era o mais próximo da minha casa e, para mim, pessoa que detesta acordar cedo e enfrentar trânsito caótico, é perfeito, tais coisas detonam completamente com o meu dia.

Acordei como de costume 06h15min da manhã, saí de casa 06h45min e cheguei à classe 07h00min.

Vocês precisavam ter visto situação, todos, absolutamente todos olharam para mim assim que pus o pé na classe. Achei absurdo! Sentei em uma carteira vazia que havia no fundo e de lá pude observar o comportamento dos meus novos colegas, pelo menos de forma superficial, claro. As meninas possuíam cabelos compridos, neutros e lisos. Os rapazes cabelos curtos. Quanta diferença da minha antiga vida, eu nunca havia visto um ambiente tão monocromático como esse, com certeza, não. Meu cabelo curto com mechas vermelhas deve ter saído do ritmo da vida pacata de todos aqueles jovenzinhos, o que facilitou a feição de susto das crianças. Por um lado eu achei um máximo, me senti ‘A Rebelde’, mas como alegria de novato dura pouco, surgiu o diretor do colégio para fazer a minha apresentação à turma e falar de quase todos os pormenores da vida desta pobre aluna que a mãe havia conversado com ele na semana anterior. Um verdadeiro tédio, me ver exposta dessa forma é algo que me deixa envergonhada. Sorte que acabou imediatamente e pude voltar para a minha carteira.

Com o término da aula o professor dirigiu-se à mim para informar sobre o assunto do semestre anterior e como era o método de ensino dele. Tudo conforme um profissional da área faria só que naquele ambiente simplório, tornou-se motivo de conversas voltadas a minha pessoa. Percebia-se pelos cochichos e olhares. Se ainda soubessem disfarçar...

Assim que o professor terminou de explicar sobre o cronograma de avaliações e derivados, saiu da sala e eu pude finalmente colocar uma música suave no meu Ipod, relaxar e ler um pouco. Queria paz, não gostei dos pequenos atos que observei então me camuflei para eles.

Passaram-se 3 minutos.

Algumas meninas rodearam minha carteira. Observando tal presença retirei os fones e pus-me de forma receptiva a escutar o que pretendiam dizer e elas fizeram inúmeros questionamentos sobre minhas origens, cidades passadas, cor do meu esmalte e o livro que estava lendo.

Era perceptível que por trás do estranhamento que elas sentiam, parecia ter certa curiosidade. Informei-lhe da forma que me foi possível explicar, sem evidenciar muitos fatos e sem comentar coisas que só me dizem respeito. Pareciam realmente alegres e felizes. Loucas para mostrar a nova coleguinha às outras meninas de classe diferente e comentar sobre o quão meu cabelo parecia diferente e da minha coragem de fazer tal coisa com minhas madeixas.

Era essa a vida que minha mãe me expôs, deveria lembrar a ela quando eu chegasse em casa.

Chegando o horário de retornar à sala de aula, algumas delas seguraram em meu braço como se fôssemos amigas antigas e incondicionais. Fizeram questão que eu sentasse próximo.

E assim sucederam-se os dias na semana, cada vez mais afetos exagerados: repartindo lanche, guardando lugar para a minha pessoa, chegavam até a esnobar amizades antigas que possivelmente não significavam nada para elas. O foco do momento era eu, tinham me elevado ao papel de novo brinquedo. Isso tudo até a sexta feira.

Assim que coloquei o meu pé naquela classe nesse dia, umas duas meninas vieram conversar comigo. Elas possuíam um tom sério, mas o assunto não era nada interessante. Perguntava uma delas se eu havia comentado sobre outra garota, ou se eu estava tentando imitá-la. Questionaram se todas as coisas que eu havia dito a meu respeito eram mentirosas e se era verdade que minha mãe havia mudado de cidade pelo fato de eu ter ficado com inúmeros meninos no outro local. Ora, que cultura bestificada! Como diabos elas inventaram tais asneiras? Como elas criaram tantas coisas a meu respeito? Quantas drogas elas usaram até chegar a esse ponto? E o quanto de veneno que elas haviam absorvido da própria língua? Realmente eu não sei, mantive minha postura. Neguei todas aquelas calúnias e fui me sentar.

Durante a aula dezenas de bilhetinhos eram passados entre elas. Alguns chegaram até a mim com perguntas medíocres como ‘Por que motivo você falou de Amanda?’ ‘Disseram que você quer ficar com Carlos só pelo motivo de ter descoberto que ele á namorado de Clara. Como você pode fazer isso?’ ‘ Eu sempre desconfiei de que você fosse uma vadia!’ Era para ser uma brincadeira ou essas meninas eram realmente loucas. Juntei todos aqueles bilhetes e fui ter uma conversa com o diretor. Ele simplesmente disse ‘ Sua aparência é diferente, não estamos acostumados a pessoas, assim, como você. Depois sua presença será aceita entre as suas amigas.’ Amigas? Que diabos de amigas! Que droga de colégio! Isso lá é coisa para se falar? Mas eu disse um ‘ Ok!’. Saí daquela sala com profunda raiva e demonstrando imensa calma.

Uma professora que estava no gabinete dele no momento seguiu meus passos e dirigiu-se a mim, eu não recordava o nome dela e nem a matéria que ela ensinava, mas fiquei muito agradecida com as suas palavras e o fato de ter se importado com a situação. Comentou sobre o aspecto dos integrantes daquele colégio e manteve-me em alerta. Conversei um pouco com ela sobre o fato de não ter feito absolutamente nada e que as mesmas meninas havia me procurado demonstrando amizade e depois surgiram com inúmeras mentiras a meu respeito. A professora escutou atentamente e indicou-me ter paciência, ou preferencialmente sair do colégio e procurar outro. Citou até outras instituições.

Se a minha professora é quem está indicando outras escolhas e acertando nas características daquelas garotas, então quem sou eu para questionar? Senti certo alívio por ter alguém que me compreendesse.

Fui para a classe. As meninas agora nem olhavam mais para o meu rosto. Um ou dois garotos vieram conversar comigo e comentar sobre a atitude delas, afirmando que aquilo era típico e que viviam sempre em brigas e discursões por mentiras inventadas entre elas mesmas.

Resumo que eu tive do dia: Não confie em pessoas que tentam parecer normais, que demonstram profundas amizades instantaneamente e nem no diretor do seu colégio, pois ele vai sempre dizer que está tudo normal.

Terminando a aula daquele dia fiquei esperando minha mãe chegar, enquanto isso, eu fiquei conversando com um daqueles meninos que havia conversado comigo durante o intervalo. Até que parecia legal. Quando de repente surge alguém puxando meu cabelo e fazendo com que eu caísse do banco em que estava. Tentei sair daquele nó louco e o rapaz tentava tirar a pessoa dos meus cabelos. Surgiram alguns funcionários da secretaria que nos levou imediatamente para a coordenação. Era o que faltava para completar o meu dia.

A jovem estava completamente histérica e chorava muito. Eu, que tive meu cabelo destruído e estava parecendo uma vassoura, virada mantive a calma. O rapaz estava com ares de despreocupado.

Comentei sobre o que aconteceu. A menina comentou de outra forma. Tive que esperar minha mãe naquele local com uma advertência logo na primeira semana de aula. Era uma maravilha.

Houve reclamações por parte da minha mãe. Eu entrei no carro dela e expliquei as coisas detalhadamente, ela compreendeu tudo e seguimos.

Entrei em meu quarto joguei a bolsa na cama e fui tomar banho, depois de alguns minutos minha mãe avisa que há uma pessoa do meu colégio me esperando. Depois de me arrumar, vou até a sala para receber a pessoa. Era o jovem da minha sala. Estava com o meu celular em suas mãos, segundo ele, meu aparelho saiu do bolso na hora que a louca começou a me atacar.

Entregou o objeto e pediu desculpas. Eu disse que não havia importância que a culpa da falta de senso dos outros não era dele. Meio encabulado voltou a dizer que a culpa era sim dele, pois havia dito que estava gostando de mim para algumas pessoas da sala e, por ciúmes e amizade as meninas passaram a comporta-se estranhamente.

Fiquei admirada pelo fato de ter sido ignorada por todas as meninas, por causa da fala de um garoto.

Aprendi outra lição no dia: Estou estudando em uma selva com fêmeas loucas e machos babacas.

Ainda bem que hoje é domingo, amanhã é feriado e depois desse evento quem decidiu trocar de ares, não foi minha mãe e sim eu. Rumo a um novo colégio!

domingo, 20 de novembro de 2011

A Casa Branca


Deram-me um martelo e um prego. Em seguida disseram: Corra!

Abri a porta do carro e fui pela estrada. Tempo nublado. Chuvoso.

Eu estava rubra de pavor, mãos trêmulas. Talvez fosse minha última aventura na vida. Apenas seguia na intenção de encontrar o meu destino.

Virei à esquerda quase batendo em um poste, por sorte não atrapalhou meu circuito. Segui direto até encontrar um vilarejo perdido. Encontrei a tão falada casa branca de cerca azul. Era pequena, humilde e lá possivelmente era a resposta para algumas coisas. Ao ver o sinal de um veículo próximo abriram os portões. Havia pessoas guiando sobre o local em que eu deveria estacionar. Estavam com capas de chuva e apenas apontavam com os braços. Não dava para distinguir o rosto.

A garagem era subterrânea havia cerca de 50 carros dos mais diversos tipos e valores estacionados. Fiquei ligeiramente impressionada, mas não havia nada para levar muita consideração.

Estacionei na vaga que restava. Desci do carro. Uma pessoa me esperava naquela espécie de cemitério de máquinas.

Vamos.

Mostrei o prego e o martelo. Perguntei o que faria com tais instrumentos.

Recebi apenas um:

- Guarde consigo.

Já não conseguia sentir meus pés e minhas mãos. Talvez estivesse arrependida. Talvez fosse preferível ser fraca e deixar-me contagiar imediatamente pela loucura que havia atingido o resto da população. Mas o que é loucura? Eu necessitava de paz, porém ninguém parecia mais deseja-la. Agora estava caminhando entre carros, em um estacionamento desconhecido, com pessoas que nunca havia visto antes e que lutavam por algo que nem sabia das consequências.

Subimos pelo elevador. Eu mantinha meus olhos presos no chão. Tinha receio de desvendar aqueles rostos, ou que o meu fosse desvendado. Não queria, talvez, ficar mais vulnerável do que já me sentia.

O elevador parou. Ele saiu e eu continuei seguindo.

Pediu para que eu mantivesse a calma que tudo ficaria bem.

Eu apenas consenti sem levantar a cabeça. E continuei o seguindo olhando para os seus pés.

O piso da sala era branco.

Finalmente tomei coragem para olhar o que havia naquele local.

Não havia janelas. Ainda estávamos em algum andar abaixo do solo. As paredes eram igualmente brancas e algumas almofadas de cores berrantes e colchões faziam parte da decoração.

Sentei-me em alguma delas por impulso e contraí meu corpo o máximo que pude.

Ouvi vozes entrando do ambiente.

V1 - Olha só essa aí era a que faltava?

V2 – É sim. Fui busca-la agora no estacionamento. Chegou e sentou.

V3 – Não assustem a menina com esses comentários. Vocês também ficaram meio assustados.

V1 – Assim?! Tsc...

A terceira voz aproximou-se de mim e perguntou:

- Trouxe os itens?

Eu – Sim.

V3 – Cadê?

Retirei o martelo e o prego da minha blusa e entreguei. Finalmente olhei para aquelas pessoas. Vestiam-se diferentemente. Fugindo completamente do padrão visto das ruas, chegava a ser excêntrico.

V3 – Seu nome vai ser Girassol. E não nos diga sua identidade original. Ninguém aqui está muito interessado. Meu nome é Tulipa e seja bem vinda. Se você está aqui é pelo motivo que de alguma maneira foi escolhida e quem passou as ferramentas, sabia o que estava fazendo. Agora vá trocar de roupa e chega de neutralidade. Assuma sua personalidade.

Eu, agora Girassol, segui a Tulipa no vestiário. Meu humor oscilava, não sabia se iria poder variar muito nas roupas, não sabia se teria meus remédios novamente. Então busquei vestir-me com alguma coisa que não sentisse repúdio posteriormente.

Botas pretas. Cabelo amarrado. Franja de lado. Vestido azul. Aplique vermelho no cabelo. Casaco preto. Dois tutus verdes embaixo do vestido. Até que não estava sendo tão ruim. Parecia uma boneca de terror.

Tulipa olhou, olhou...

- Até que faz sentindo. Vou apresentar você aos outros integrantes.

Fomos para a sala e lá havia mais quatro pessoas.

- Apesar de ter 50 integrantes, dividimos por grupos. É mais saudável. Disse-me.

Ficamos paradas por um tempo e ninguém se manifestou. Até que Tulipa, com sua voz macia e maternal, quase gritou.

- Minhas flores apresentem-se!

Sinceramente, eu não entendia absolutamente nada. Havia um clima de tensão espalhado pela cidade e todos ali agiam como se nada tivesse acontecendo.

Meu nome é Gardênia, levantou-se um rapaz de 1.70 de altura, usando roupas berrantes em tons de roxo e verde.

Meu nome é Cravo, era uma menina de seus 17 anos com roupas brancas, boca vermelha e cabelos pretos. Segurava a mão de Gardênia.

Inusitadamente alguém me segurou pelos ombros e disse. Tente adivinhar quem sou.

- Como eu poderia adivinhar?

- Menina sem graça. Eu sou o Lírio. E eu me visto de lilás e branco só para mostrar como sou uma pessoa suave.

Ele passava suas mãos geladas pelo meu queixo e pescoço.

-Suave?

- Não me questione.

Um rosto feminino surgiu de um ambiente escuro da sala.

- Eu sou a Rosa.

Rosa era uma mulher ruiva, extremamente linda. Vestia-se de vermelho. Estava sentada em um canto. Fumando. Apagou o cigarro. Levantou-se e veio me cumprimentar. Não dê importância. Estamos todos loucos.

Venha. Vou mostrar para você a realidade das coisas por aqui. A Tulipa é uma mentirosa.

Tulipa - Não confunda a cabeça da novata.

E eu a segui pelos corredores daquele estabelecimento.

Ela me indicava os ambientes como se desfilasse no ar.

- Ali fica o refeitório. Aqui os banheiros. Lá o salão de descanso. Às vezes podemos passear no parque. Outras não.

- Mas me disseram que aqui seria o campo de treinamento. Está havendo uma conspiração lá fora e ninguém faz nada?! Como vocês podem fazer isso? Agir de tal forma! Como admitem tal atitude?

Fiquei irritada e nervosa. Comecei a procurar uma saída naquele local. Deveria ter alguém com consciência que explicasse a todos que deveríamos salvar o mundo!

Corri pelos corredores gritando. Declamando todas as minhas indignações sobre o mundo. Quando dei por mim, pessoas dos outros quartos estavam na porta observando a situação.

Rosa continuou parada, encostada na parede, e rindo. Ela levava outro cigarro aos lábios.

Dois homens surgiram tentando me segurar.

Continuei a gritar a tentar livrar meu corpo daquelas mãos.

- Eu não quero ficar aqui! Eu não quero! – Continuava a gritar. Chorei. Sentia-me humilhada e vencida.Foi quando percebi que recebia uma injeção.

Tonta e com a cabeça pesada acordei. Em um quarto menor que o anterior, deitada em uma cama.

Meus colegas de grupo esperam. Cravo, Rosa, Tulipa, Lírio e Gardênia.

Quando perceberam meus movimentos foram mais próximo e espalharam-se ao redor como quiseram.

-Está bem, bonequinha? Disse Tulipa. Até que não dói tanto, não é? Depois você acostuma-se. Continuou.

-Não tente fugir, vai ser pior. Disse Cravo, colocando uma balinha de morango em minha mão.

Eu, Girassol, fiquei muito triste em saber onde estava. Não consegui entender muita coisa. Estava tonta com a medicação. Não sabia quem eram eles. Apenas compreendi que não tinha mais minha vida.

Lírio - Aqui é um centro de recuperação, Florzinha.

Rosa – Você não está louca. Eles só não nos querem por lá. Escondem-nos e vivem da maneira que querem. Você descobriu coisas que não era para se saber, agora irá arcar com as consequências.

Tulipa – Não assuste a menina!

Rosa – Todos nós passamos por isso. Logo ela irá se habituar.

Com um aperto no coração, algumas lágrimas tornaram-se inevitáveis. Recebi alguns abraços. E fomos para a sala branca novamente.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Bilhete


'Não há mais nada de interessante que se precise ser dito nesse momento, eu te amei.'

Amassei o papel tentando colocar toda a minha raiva naquela mini bola recém formada para então, começar a pensar, no que foi esse amor e em todas as palavras carinhosas ditas. Não quero parecer que vou destruir meu mundo e entrar em depressão, pois não vou. Sabia das consequências. Mas o que importa é entender por qual motivo ínfimo o fez me tratar de tal forma. Se já não gostasse mais ... Que pelo menos conversasse decentemente e não em um mero bilhetinho... Creio que foi até proveitoso, pois se fosse um e-mail teria partido meu computador na parede. Nervosismo é pouco nessas situações... Foram inúmeros ' eu te amo', 'nunca vou te abandonar', ' eu amo você mais do que tudo'... Esse joguinho de fazer acreditar que os dois se completam. Tenho como definir tudo: 'Uma extrema palhaçada!' Não quero nem saber de ir atrás, se quiser, a pessoa que venha. Vou p'ra janela um pouco olhar os pássaros voando pois, por enquanto, é o que me preenche mais.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

De repente, a vida.


Corria pela estrada. Ávida de desejo. Eu quero sentimentos! Cada gota de suor que surgia em seu corpo era uma demonstração de que estava viva. Ia o mais rápido possível. Seus pés cansados, doloridos, cheios de calos e o tênis nem ajudava, estava velho, mas isso não importava. O primordial era ficar no limite. O cabelo grudava em seu rosto e costas, queimados dos raios solares, cada vez que seguia em frente. Puxa um elástico do bolso e o prende, prosseguindo na mesma velocidade anterior. Yo quiero la vida! Quiero sentir!

Loucura é não saber identificar se realmente é um ser vivo, se abster de sentimentos. Abrindo os braços e gritando loucamente para nuvens, sol, pássaros e tudo mais que a escutasse. No ponto mais vazio que conseguiu encontrar. Amar não é um deserto! Eu não estou só! Uma agonia simbólica. Parou por um momento. Enterrando os pés na areia. Ajoelhando-se. Sentindo cada grão em sua mão. Revitalizando sua pele com as lágrimas espalhadas em seu rosto. Mordendo os lábios inferiores. O que é isso tudo? O que é? Levantou-se lentamente. Limpando a areia das mãos no short. Prosseguiu a corrida. Eu sou minha mente! Eu sou cada molécula em meu corpo! Sou cada forma física aparente dele! Minha idade, minha energia.

Sentou-se na grama contemplando tudo que havia ao redor. Encostada em uma árvore, respirando lentamente. Observou o dia correr tranquilamente depois de todo êxtase. O sol adormecia para a lua se colocar em seu lugar. E sua pele, cada pelo, sentindo a brisa lhe envolvendo. Pôs suas mãos deitadas na grama. Sentindo sua cabeça no tronco da árvore. Paz. Calma. Adormecendo. Seus membros inferiores relaxados. A terra moldava-se em seu contorno. Calmamente. Suavemente. Algumas gotas de chuva na madrugada purificaram sua boca ressecada pelas palavras grosseiras. Vagarosamente. Vagarosamente. Sentindo sua energia dissipando naquele ambiente. Fazendo parte de um todo. Dúvidas e ansiedades sendo aliviadas. Serenidade. Misturando-se com a natureza. Sendo um só. Fazendo parte daquele ambiente que lhe trouxe toda indagação. Para finalmente se inserir nela, ser ela, a vida. Servindo-lhe do melhor adubo. Sua carne.

Fim de um casamento.

Rasgue esse papel agora! Eu exijo!

Você acha que é quem, mal agradecido?

Eu não quero ver você vasculhando as minhas gavetas!

Pensa que estava lá? Engano seu. Estava jogado no chão.

E como se atreve abrir?

Faça-me o favor. A vítima dessa tragédia sou eu! Como você ousa tentar mudar a cena? Típico da sua pessoa.

A propriedade é minha, ou você esqueceu como se lê?

A casa é minha e tudo que entra e sai dela deve ser de meu conhecimento.

É violação de privacidade.

Isso é traição da sua parte e ainda tenta ser o pobre coitado.

Como se isso fosse algo de outro mundo.

Eu não estou acreditando na sua postura.

Você já deveria ter suspeitado antes de nos casarmos.

Como?

Esquece.

Pegou o papel. Saiu no carro. Foi embora.

Enxugou as lágrimas. Levantou-se. Tomou banho. Fechou a casa. Foi embora.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Ser, Amar e seus Problemas.

Os primeiros raios começaram a entrar pela janela, como era bom sentir aquele gostinho matinal, havia deixado para trás tudo que a triturava interiormente. Sua intenção era recomeçar a vida de um ângulo mais natural, amadurecendo de forma coerente e evitando desgaste emocional. Não queria mais desfrutar a tristeza por está fazendo algo indesejado, com isso, decidiu seguir novos rumos. A busca pela sensação de leveza era exatamente o que mais ansiava alcançar, mas tinha plena consciência que vivendo em ambientes nos quais a rodeava nunca iria chegar nesse estágio. Tendo percepção de que as mudanças devem ocorrer interiormente, procurava meditar constantemente sobre os acontecimentos de sua vida. A insensibilidade humana era o que mais a incomodava, rodeada por tantos, mas ao mesmo tempo extremamente vazia de afetos, dilema enfrentado por muitos, e com ela, claro, não seria diferente, pensava veementemente ser esse o principal mal da sociedade. Romper uma rotina não é fácil, apesar de ter sido inconstante por um bom tempo sobre fazer ou não a mudança, resolveu ter uma iniciativa firme, afinal, distanciar-se de toda aquela selva urbana é algo que requer muito mais força do que se imagina, é um modo vida que será sepultado. O êxtase a possuía fortemente, sentia-se como um pássaro liberto.

Dedicada a começar viver em um local mais arbóreo, dirigiu-se para a antiga fazenda da sua família, mal lembrava da existência dela na cidade, mas surgiu-lhe como ás para seu primeiro passo. Obter novos conhecimentos independente de pressões externas a excitava bastante, não estava satisfeita com a concentração de conhecimentos em apenas uma área, acreditava que aquilo era um ponto fundamental para sua elevação interior e com serenidade buscaria essa nova mulher que gritava por vida.

Nunca foi escrava dos bens materiais, muito menos era uma exímia consumidora, gostava apenas do essencial e, principalmente, de belos detalhes.

Sentou-se em uma cadeira observando a paisagem através da janela, como achava magnífica todas aquelas estufas. Alisando a mesa com o toque suave de seus dedos, percorrendo seus traços, sentindo delicadamente sua superfície, respirando o cheiro fresco que aquele ambiente proporcionava. Pegou uma maçã da cesta de frutas e dirigiu-se à porta. Em seu pensamento ansiava observar a plantação flores, porém, avistou ao longe um movimento estranho. Não era nenhum dos funcionários que a auxiliava no trabalho, já que era domingo, o dia de descanso.

Era poeira para tudo quanto é lado e foi aí que percebeu de quem se tratava aquele veículo escandaloso, seu ex-namorado, Artur. Não acreditava que logo ele teria coragem de sair do meio urbano sem quase informação nenhuma sobre o seu paradeiro para ir vê-la, essa seria uma circunstância absurda, mas como em termos de loucura o ser humano é mister, logo começou a achar a ideia normal e gostar do atrevimento do rapaz.

Estava afoito, suado e com uma aparência de cansado.

Olha só quem resolveu dá o ar da graça... Você está bem?

Estou exausto, mas pretendo conversar contigo antes de qualquer coisa.

Comece seu discurso.

Eu só queria que você entendesse que não fiz por mal, como você queria que eu aceitasse toda essa sua loucura? Sua vontade imensa de querer fugir da vida... Qualquer um pensaria que você não estava muito bem situada. Como eu poderia crer que fosse verdade?

Pois é... Como iria? Mas a confiança é o pilar primordial para um relacionamento, e isso foi o que você mais provou não nutrir por mim.

Sei que deveria ter te apoiado imediatamente, mas eu não queria abandonar minha vida, meus laços de amizades... Eu não estava pronto para romper de forma repentina.

Porém mostrou uma falta de apoio tremenda com quem você dizia ser primordial em sua existência. Sinceramente eu fiquei muito admirada por te ver aqui, até porque você recusou-se a vir morar comigo... Bem está vendo que não me encontro nenhum pouco desamparada, mas, com certeza, deve ter visto que a única pessoa que realmente te apoiava em seu mundo de razão era eu. Irônico não?

Não foi falta de amparo algum, eu percebi o quanto estava com saudade, até por que eu não acreditei realmente que você faria isso.

Então você pensa que minhas palavras são simplesmente sopradas ao vento, afinal, quando foi que você realmente me escutou? Diariamente eu questionava meu modo de viver e dar seguimento àquela amargura não era algo coerente.

Eu sei que tratei levianamente suas ações, porém, você também deveria ser mais comedida, onde já se viu tamanha extravagância? Vendeu todos os seus bens impulsivamente, como eu poderia avaliar essa situação? Para mim não passava de suas crises passageiras. Não via motivo algum para se sentir vazia, você sabe o eu penso com relação a isso. Considerei ser apenas uma frescura de pessoas que possuem tudo e decidem largar, mas eu vi que julguei um pouco prematuramente suas atitudes, vejo que está bem, se eu vim até aqui é por que te amo e para dizer que se você realmente quer viver dessa forma eu te apoio. Só não quero que você fique mudando sempre por que algo no local não a agrada.

Deveria ter conversado comigo anteriormente sobre os fatos, pois, se você pensa que eu não tenho bom senso, sinceramente, não sei o motivo pelo qual conviveu comigo durante esse tempo.

Vamos conversar sobre isso e esclarecer calmamente o episódio, há muitas coisas em aberto. Eu te amo, tenho plena consciência. Não podemos nos afastar por um mero descuido.

Sentaram em um banco próximo a entrada.

Estava muito estressada naquele ambiente. Qual o motivo de você ter negado a ideia de vida que eu quero levar?.

Compreendo sua insatisfação, porém com sua personalidade oscilando, será que você não desistiria desse território também e voltaria para o seu antigo lar? Você não passava muita certeza em seus atos, tanto que na hora da despedida apenas me telefonou afirmando que já estava partindo, como eu poderia ter uma afirmação concreta do seu amor? Uma imensa quantidade de atos deixou a desejar. Estou decidido a ter uma resolução firme do que você deseja desse relacionamento.

Aquele estresse todo me deixava sem uma direção firme de como levar os meus dias, queria fugir o mais rápido, tentei comunicar, porém você estava tão concentrado em seu trabalho que talvez não tenha percebido os sinais que eu tentei mostrar, gostei de sua atitude ao me visitar, mostra que você realmente se importa. É muito fácil julgar os defeitos alheios, sei que erro, mas eu tentei ter uma diálogo sério contigo, porém o tempo era ínfimo.

Acredito que todos nós perdemos um pouco com a realidade que nos destinam, pena eu não ter aberto os olhos antes para lhe ouvir, sua presença é fundamental em minha vida. Eu tenho razões imensas para largar tudo e procurar saber o que se passa com sua pessoa. Havia enxergado tudo como uma fuga premeditada, mas refleti que deveria existir mais razões. Confio que você não faria isso inconsequentemente.

Claro que não. Aqui é o local onde me sinto preenchida, queria que você tivesse comigo anteriormente, mas tivemos que romper de forma brusca por conta de sua falta de atenção. Eu não quero me sentir tão sozinha. Quero seguir um outro modelo de vida, não vejo benefícios algum para qualquer cidadão existindo daquela maneira, principalmente para uma criança. Quero que meu filho ou filha tenha liberdade para crescer em um ambiente livre e que deseje ter vida acima de tudo.

Entendo o seu ponto de vista. Lamento por não ter compartilhado com ele antes. Estou de acordo com sua análise, estávamos nos destruindo lentamente, e eu nem tive capacidade de perceber.

Todos ficamos desorientados, acreditamos que aquilo é a vida, mas na verdade é algo que escolhem para nós.

Almejo tanto para que nosso relacionamento melhore. Você é muito importante para mim, eu perdi tanto em sua ausência, fico sem alicerce algum.

Está realmente disposto a viver comigo nesse local independente do que você fazia em outro ambiente?

Que outro homem sairia predestinado em ver uma mulher que se encontra tão distante se não a amasse? Eu sou inteiramente apaixonado por sua pessoa, Marcela. Desejo sim viver contigo.

Artur, há tanto tempo você não diz coisas tão amorosas! Sinto-me até mais viva por perceber que você me ama com tanta força.

Ficamos perdidos na ganância, também me sentia infeliz, mas tentava cobrir toda a tristeza na busca por posições que a sociedade valorizasse, esquecendo completamente dos valores que me impulsionam a viver.

E por qual motivo você também não compartilhou da minha ideia?

Medo de que outra vida não tivesse tanto significado, mas nada disso tem mais sentido. Ficar longe de você é uma agonia impossível de sentir.

Daqui para frente o primordial será o 'Nós' e não o 'Eu'.

Estou completamente de acordo.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Além do Conforto


É mais um dia nubloso e acho que se eu continuar aqui no telhado não afetará em nada a rotina dele, nem a minha, já que a minha senhora ainda continua com o tricô diário... Ai, ai,... Acho que irei lamber um pouco mais meus pelos e me espreguiçar novamente. Toda vez que a chuva chega antes dos garotos entrarem em casa eu vejo uma cena engraçada, pois adoro quando aquelas mulheres e homens saindo de seus territórios gritando o nome de seus filhotes. E ainda se acham espertos...

Segundo o rádio a chuva seria muito forte, acho que minha dona vai gostar de me ter um bom tempo por perto... É pensando e acontecendo! Eu não disse? Já ouço chamar meu nome... Tenho que sair deste local. É tão delicioso andar pelo telhado... Uma sensação única, essa inclinação, é uma tarefa extremamente cuidadosa, pulando de um lado, descendo de outro e a janela já está aberta me esperando. Os pássaros voam para longe, queria poder saber o que há por lá.

Eu disse que não gosto de ver você andando pelo telhado! Vai que encontra algum perigo por lá? Você bem sabe que me da uma dor imensa no peito só de imaginar ver sua imagem desfigurada no chão... Mas essas coisas não dão para evitar por muito tempo, até você, algum dia, deverá se acostumar com minha ausência. Bom... Hoje seu leite vai ser do jeito que você gosta, morninho, que é para acompanhar o clima. Sabia que disseram que a chuva vai ser muito forte hoje? Ainda bem que você me escutou logo, pois eu já teria que fechar imediatamente as janelas, tragédias podem acontecer a qualquer instante. Ah! Você quer mais leite? Deixa eu por mais um pouco.

Fui direto à tigela, ela havia acertado completamente, adoro o leite naquela temperatura. Bem... Já era de se esperar a chuva forte, ando notando muito bem o gesto diferente dos pássaros, apesar de não entender com perfeição como isso ocorre. Minha dona é uma senhora muito boa, ela é solitária, e posso até entender o motivo, pois, vendo o comportamento dos outros animais humanos eu também ficaria reclusa de tal maneira. Adoro minha almofadinha, ela é amarela e tem um bordado branco com as minhas iniciais G. G. ( Gata Gigi), eu adoro o meu nome, principalmente pelo fato dele ter surgido de um filme que minha dona gosta. É tão bom ficar deitada na almofada em dias como esse, ajuda a esquecer um pouco a vontade de saber o que há atrás da rua.

Hoje chegou minha nova revista de palavras cruzadas, Gigi. Ainda bem que o carteiro não amassou o envelope como a do mês passado, aquilo me deixou profundamente triste, pois é como se a outra pessoa não gostasse do que faz ou não se importasse com o que a outra pensa, pois se você está em um emprego deve fazê-lo com primazia, era o que meu pai falava.

A senhora Carmem tinha 75 anos, morava sozinha, os filhos não apareciam, muito menos os netos. Ela dizia que eles tomaram chá de sumiço, eu nunca encontrei esse chá na prateleira dela. “Hoje em dia é assim, só os animais são verdadeiros amigos.” Ela completava. Eu me sentia extremamente grata por tal comentário, dava vontade de pedir outra tigela de leite, mas eu procurava não exceder, afinal, ela era apenas uma senhora que precisava de mim.

Algumas coisas você aprende com o tempo. Certo dia no telhado eu estava brincando com uma borboleta que muito me importunava, mas, infelizmente, acabei me desequilibrando e derrubando alguns jarros de flores da prateleira, não aconteceu nada comigo, evidente, mas aqueles seres verdes estavam todos no chão. Foi uma das vezes que eu vi a senhora Carmem chorar por algo que eu fiz, e percebi que ali eram muito mais que flores paradas, eram as flores da dona Carmem. Passei o dia entre as pernas dela tentando alegrá-la, até que ela me pôs no colo e com um abraço disse que colocaria leite, já estava tudo bem.

A casa não era muito grande, o quintal parecia ser maior, havia muitos quadros na parede, tinha uns que pareciam com um lugar que chamavam de praia, sei disso, pois aparecia em novelas que ela assistia. Gostaria de saber como é lá, o que se passa, qual seria o som...

Eu gostava muito de dormir atrás do sofá, mas era proibido, já que poderia ter algum acidente com a tomada que tinha na parede. Eu durmo na poltrona bege, que não deixa de ser confortável também. Muitas vezes bate um tédio dessa vida,... Dizem que é fácil, que queriam ser eu, mas não é. Vejo muitos gatos gritando, correndo,... Pássaros voando e conhecendo outros lugares,...

Eu gostaria de poder entender a vida, Gigi, mas creio que isso todos queriam entender. A melhor forma que eu vejo de escapar disso é assistindo tv e escutando música, sei que você ainda gosta, não adianta fugir como se estivesse cansada dos meus discos. Acho essa coisa de tecnologia muito absurda, nunca me acostumei com os cd’s, e em pensar que o Carlinhos da última vez que esteve aqui me implorou para aceitar aquele aparelho, e eu lá sou doida de vender meus discos? “Jamais! Prefiro perder a amizade que a dignidade.” Ainda lembro das minhas palavras no dia, e já faz tanto tempo que ele faleceu, me arrependo de não ter aceitado o presente, não que eu fosse usar, claro que não, isso nunca, mas seria uma recordação. Você não acha?

Eu gostava de escutar suas lembranças, mostravam coisas que eu não sabia dela, e é tão bom conhecer tudo! Mesmo que haja poucas coisas ao meu alcance eu sempre vou além...Outro dia mesmo, eu desbravei uma enorme caixa de papelão, dona Carmem achou graça ao me ver andando embaixo dela pelos cantos do quintal, disse que se divertia muito comigo.

A chuva por um lado me deixava alegre, pois eu sabia que tinha um lar para viver, mas é tão ruim não conhecer os da sua espécie, mesmo que eu ficasse solitária depois de tantas coisas, como a minha dona, é sempre bom sentir, esse deve ser um aspecto para ter certeza que se encontra vivo. A incerteza de que amanhã poderá fazer sol me deixa na expectativa de poder ver, e se fizer sol... Eu posso ir para o telhado ver os pássaros voarem, não para o norte, ou sul, mas em volta das árvores.

Eu poderia fugir, desbravar esse mundo... Ser uma gata selvagem como esses que aparecem em filmes, mas dona Carmem é tão boa e tão só ao mesmo tempo. Essas ideias eu posso deixar para outra ocasião, para outro dia.

Ela havia me dito que eu não poderia andar entre a grama naquela semana, pois estava muito grande e o jardineiro estava doente. Minha saga pelo telhado continuava como ponto principal, alguns gatos surgiam para conversar comigo, mas eu saía imediatamente de perto. Eles poderiam me passar muitas doenças, eu já estava avisada.

Deveria ter criado algum filho de forma diferente, talvez eles ainda estivessem aqui. Não entendo como tudo isso veio a ficar trágico dessa forma, talvez pela minha alta sensibilidade a arte tenha afetado tanto, que ficaram com repúdio da minha velhice. Deveria ter ensinado as coisas sem metáforas primeiro, pois hoje em dia a metáfora é quem me ensina.

Sentia vontade de me tornar gente nesses momentos e agradecer a tudo que ela me faz, mas isso só acontece em sonhos.

Fiquei andando pela casa buscando tentar ajudar em alguma coisa, mas dona Carmem já não se movimentava mais, sabia o que tinha acontecido, foi seu sonho eterno que chegou, mas era tão difícil de acreditar, de entender, tanto, mais tanto, que eu passei a entendê-la mais. Fui para a porta do vizinho com o envelope na boca, pois ela já havia me ensinado tais coisas para quando essas circunstâncias aparecessem. Não foi tão difícil quanto a dor. A liberdade muitas vezes chega com um alto preço.

Agora eis o que sou,... Uma gata que queria o mundo e que agora não sabe o que fazer com ele. Aventurar-me por entre essas ruas e finalmente conhecer o mar parece sombrio e sinto receio... Mas se é para isso que me encontro no portão, não voltarei para a casa novamente sem antes conhecê-lo.

Mas eu não sei para onde é a direção da praia, como será que irei encontrar? Acho que essa ideia começou a complicar...

Continuarei e farei alguns ajustes posteriormente ;)

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Lanche na madrugada.


A sombria figura entrou no estabelecimento, o local não era um dos melhores, porém, aquela expressão com certeza não merecia. Dona Elza tinha até limpado o chão poucas horas atrás, quanta falta de classe daquele sujeito! É... Ele realmente não estava para conversa, saiu derrubando tudo... Copos, talheres... Revirando furioso o rosto para todos os lados, bufando, perguntando 'Onde está ela!'
'Mas quem é ela ?' Pensei, claro, pois falar seria demais para aquela situação, você não entenderia... Era algo assustador.
Permaneci sentado em um dos bancos do balcão, esperando ver se tudo aquilo não passava dessas loucuras que acontecem em restaurantes 24 horas.
Senti algo atravessando minha cabeça, acho que havia sangue também... Só que eu não lembro bem do que aconteceu depois.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Um dia de domingo.




Suspiros entraram pela janela naquela tarde, a brisa era uma dádiva para compensar a temperatura, ela encontrava-se perfeitamente anestesiada com o calor daquele dia. O suor surgia em cada poro de sua pele fazendo-a lembrar dos momentos felizes que passava na infância brincando na beirada da piscina, 'época boa' - lembrava-se, não havia pudores com relação ao seu corpo que outrora era completamente reto e desprovido de outras coisas que surgiam, 'antes ele agradava muito mais', pensou.
Ficava olhando o movimento do domingo- assistia senhoras voltando, crianças indo-, nada fora do lugar. Sentindo-se uma completa espiã munida de um perfeito esconderijo, onde não havia ninguém que pudesse perceber seus olhares, e muito menos imaginar seus pensamentos.
Os cabelos embaraçados pela sutil despreocupação começam a voar, o calor mostra o real motivo para a sua existência, cortinas são levantadas, quadros caem na sala, vasos são derrubados... É hora de fechar as janelas- sua mãe avisa,... Mesmo vendo que já seria necessário segue tais ordens como se não tivesse escutado. Tranca-se em seu quarto e em seu silêncio, escutando as gotas de chuva no vidro resolve inventar outras maneiras de encarar a sua rotina.

sábado, 12 de março de 2011

A roda da frenesi

Estranhamente uma roda descia a ladeira. Ela era velha e possuía alguns rasgos, descia ferozmente sempre em linha reta. Uma multidão surgia por onde passava, mas existia um grupo que corria freneticamente ao seu encontro, diziam: "Eu quero a roda! Ela é minha!"

Nesse momento fiquei estática, observando aquele cenário louco, havia gente estranha por todos os lugares, suas faces tornavam-se cada vez mais distorcidas na medida em que ansiavam pegar aquele objeto. Alguém me empurra e bravamente diz: “Saia da minha frente, garota!" Seus olhos eram pura chama, sua boca espumava de desejo, obsessão. Bati minhas costas em uma árvore que havia na calçada, pensando comigo 'O que será que é isso?' Meus questionamentos não estavam mais ligados a rir inconscientemente daquele teatro ridículo, agora envolvia muito mais, até porque para que diabos alguém empurraria o outro por causa de uma roda que circulava sem sentido pela cidade?

Fui andando por entre a multidão que se formava, cada vez mais pessoas apareciam. Elas gritavam, berravam, blasfemavam e o grupo que se posicionava a correr atrás da velha roda aumentava gradativamente. Procurava por olhares de alguém que demonstrasse serenidade naquele dia, mas todos pareciam estar em transe. Encontrei uma praça para observar melhor a situação, ela estava lotada. Havia lixo por toda a parte, galhos jogados no chão, gritos, xingamentos, brigas. Sentei no que restara de um banco de cimento e fiquei observando a sujeira do chão, o vento levando aqueles restos de um lado para o outro. Esqueci que estava naquele lugar miserável.

'Você tem que sair daqui. ' Disse uma pessoa colocando a mão no meu ombro 'Siga-me'. Eu fui. Que mais poderia fazer? Ele me guiou até a entrada de uma casa ' Ficará segura aqui. Confie. Vou procurar por outras pessoas desligadas. '

A casa não era velha, mas também não era exemplo de modernidade. Havia um pequeno jardim com grades de até 1,50, as paredes eram cinza e a porta parecia ser extremamente resistente, não dava para ver absolutamente nada que ocorria lá dentro observando de fora, apesar de ter duas janelas elas pareciam dois olhos negros dispostos a observar. Uma mulher magra, com saias longas, cabelo castanho e preso abriu a porta. 'Entre' foi o que ela disse. Estava seguindo tais ordens tão facilmente. Havia umas cinco pessoas lá dentro, me observaram calados, pareciam analisar meus passos friamente, até que eu ouço uma voz: ' Pode sentar aqui' eu disse obrigada e imediatamente todas as expressões frias tornaram-se menos densas.

A mulher que havia me atendido sentou-se em uma cadeira próximo do grupo. “Meu nome é Alessandra. Sei que isso está sendo estranho para todos. Ninguém aqui sabe exatamente o motivo por tamanha transformação nos indivíduos, mas tentarei ser o mais breve e explicativa na medida do possível." Ainda bem que eu não era a única que estava apavorada com o estado lamentável que as coisas se encontravam, pensei. Ela respirou por um tempo, bebeu uma água e continuou o discurso "A roda é a ganância frenética, o que impulsiona a vida de milhares. Ontem saiu no jornal que quem a alcançasse seria a pessoa mais poderosa de todo o mundo, pois ela está misteriosamente ligada com o surgimento do ser humano. Ninguém sabe ao certo o que acontece. Mas milhares a seguem atrás de seu poder, e nenhum ser humano conseguiu capturá-la, já circulou dois continentes. Há vários corpos mortos espalhados pelas estradas. Pessoas morrem, matam, gritam e julgam os outros. Deixam tudo para seguir aquele objeto." Caíram algumas lágrimas dos seus olhos... "A mídia está cobrindo tudo euforicamente, mas evita falar da parte negativa, a destruição. Apesar de muitos verem seus semelhantes sumirem de uma hora para outra. Por isso as poucas pessoas que infelizmente estavam na rua naquele momento e que felizmente não foram influenciados pela Hipnose da Roda, é assim como chamamos, estão aqui. Meu marido é quem está encontrando as que se encontram solitárias e desvinculadas dessa tragédia. Há outros grupos espalhados por aí buscando pessoas que chamamos de desligadas, não sabemos o que será de nós. Mas sabemos que todos os impressionados pelo poder do objeto morrem."

Ficamos conversando sobre como cada um parou ali e o que pensamos no momento. Nossas divagações eram muito semelhantes, talvez por isso estejamos juntos, ligados uns aos outros de uma forma extremamente surreal.

A cidade estava silenciosa. O marido de Alessandra entra na casa segurando duas crianças, elas são postas em cadeiras, como todos que estavam ali. Ele foi até o balcão, colocou um copo d’água, bebeu alguns goles e disse "Muitos morreram, há sangue por cidade, creio que poucos sobreviveram... Consegui achar essas duas crianças, espero que muitos desligados não tenham sido mortos pela euforia dos demais, mas há coisas que são inevitáveis."

Esperamos uns dois dias dentro daquela residência para saber o que aconteceria, se poderia haver um novo distúrbio na população... Pelo menos na que sobrou. Não ficamos mais que isso, pois no terceiro dia alguém bateu na porta e um rapaz que se encontrava no grupo foi o primeiro que se pronunciou para abri-la. Havia uma carta. Ele a trouxe em suas mãos magras e leu em voz alta. “Parabéns! Vocês agora sabem o sentido da vida."

Éramos 10 sobreviventes ao total. Encontramos outros grupos de pessoas que ficaram desligadas no momento. Todos haviam recebido aquele bilhete estranho, mas creio que ninguém nunca saberá o que realmente aconteceu e de onde ele surgiu. Também não havia sangue algum pelas ruas, os corpos sumiram. Os desligados que viram o fim da roda comentam que ela simplesmente caiu e virou pó.