quinta-feira, 16 de maio de 2013

Nem seu choro, nem sua reza. - Roberta Melo


Na fúria, saiu apressada e sem pensar de maneira coerente sobre o que lhe acontecia. Havia um sabor opaco em si. Suas pernas estremeciam. Estava entre devaneios... 
Nossa personagem guardava sempre o melhor de si para os outros e, na penumbra, renunciava aos seus mais sutis desejos. De renúncia em renúncia; castrou-se. Sua boca que antes cantavam versos sobre a aurora foi ganhando o hábito de lentamente emudecer. Falava miudinho, falava para si. Quando imaginava sair alguma voz, era apenas sua alma ou mente conversando consigo mesma. Imaginava que os outros a escutava. Imaginava que tudo o que era dito transformava-se em poesia. Apenas imaginava.
Seu reflexo e sua dor eternizados na imagem que observara no espelho. Esse tempo de singela restrição vocal tornou-se propício para que mudanças sensíveis ocorressem em seu corpo. Sua boca colou-se de maneira lenta e imperceptível. Seus lábios uniram-se ao palato e, só assim, em seu reflexo, percebeu que a sua voz ecoava internamente. Queria gritar, pedir ajuda; não podia. Tornara-se sem voz, não podia chegar aos outros.
Seu corpo agora se encontrava marcado pelas linhas da vida. Nós que se entrelaçaram a sua existência, ao seu âmago. Nem seu choro, nem sua reza poderiam proporcionar a sua salvação.


                                                                                                    Roberta Melo


13 comentários:

Cadinho RoCo disse...

Quando ficamos desgarrados do amor eis que nos sentimos num desamparo sem tamanho.
Cadinho RoCo

Dayane disse...

Adorei esse texto, escreveu super bem.
Beijinhos
Facebook do blog
conversando-com-a-lua.blogspot.com.br

Luiza Scaglione disse...

Gostei muito do seu texto, a pontuação foi muito bem colocada! O tema também foi muito bem elucidado, cria proximidade com o leitor que sente ao mesmo tempo empatia e desespero por ao mesmo tempo ESTAR com a personagem e SER ela.

Seu blog está na minha lista hein guria :) quero ver o que mais você escreverá!

Beijos

Amanda Almeida disse...

Oi Roberta, tudo bem?
Que texto forte. Acho que algumas pessoas pelo menos uma vez na vida ficam assim. Sem saída e sem opções, guardando tudo o que sentem para si. Muitas vezes nem é por vontade, mas por pura falta de opção.
Abraços,
Amanda Almeida
Você é o que lê

Paloma Viricio disse...

Nahim que lindo o texto e bem triste também, mas as tristezas fazem mais parte da vida do que as alegrias,né?
Beijos!
Paloma Viricio- Jornalismo na Alma.

Ana Carolina disse...

Que texto incrível!

Beijoos, Ana Carolina.
http://simplesglamour.blogspot.com

Bruno Medeiros disse...

Disseste que achou triste ficar pisando em fotos... Mas a arte quando não pisoteada é apenas um enfeite.

Tua escrita também pisa... e teu texto encanta! Já participou de alguma antologia?

Abraços!

Lauri Brandão disse...

Adorei o texto, vc tem talento mocinha. ^_^
O amor é sempre tema de textos e poemas, pois é um sentimento tão louco e ao mesmo tempo tão gostoso de se sentir. Parabéns pelo texto.
Resenha #87 - Coração de Bilionário - Ruth Cardello.
Confere lá!
Manuscrito de Cabeceira
Bjs.

Ela Oliveira disse...

Oi,
Gostei bastante do seu texto,em especial do segundo paragrafo que me fez pensar quantas vezes nos doamos para outras pessoas e esquecemos de nós mesmos.
Parabéns!

Páginas Em Preto

Beijos

Kika disse...

Nossa, que texto lindo! E profundo...
Parabéns, você escreve muito bem!

Beijos da Kika/Blog Acessarte

Enfim Shakespeare disse...

Gostei do texto profundo, mas objetivo só me restam dúvidas do real motivo para tanto desespero

http://enfimshakespeare.blogspot.com.br/

Marina disse...

Roberta, você escreve muito bem. Seu texto me tocou de uma forma unica. Adorei *-*

Parabens e continue escrevendo!

Karine Marinho disse...

Nossa o texto é muito bom! É de sua autoria?
Beijos,K.
Girl Spoiled