sábado, 12 de março de 2011

A roda da frenesi

Estranhamente uma roda descia a ladeira. Ela era velha e possuía alguns rasgos, descia ferozmente sempre em linha reta. Uma multidão surgia por onde passava, mas existia um grupo que corria freneticamente ao seu encontro, diziam: "Eu quero a roda! Ela é minha!"

Nesse momento fiquei estática, observando aquele cenário louco, havia gente estranha por todos os lugares, suas faces tornavam-se cada vez mais distorcidas na medida em que ansiavam pegar aquele objeto. Alguém me empurra e bravamente diz: “Saia da minha frente, garota!" Seus olhos eram pura chama, sua boca espumava de desejo, obsessão. Bati minhas costas em uma árvore que havia na calçada, pensando comigo 'O que será que é isso?' Meus questionamentos não estavam mais ligados a rir inconscientemente daquele teatro ridículo, agora envolvia muito mais, até porque para que diabos alguém empurraria o outro por causa de uma roda que circulava sem sentido pela cidade?

Fui andando por entre a multidão que se formava, cada vez mais pessoas apareciam. Elas gritavam, berravam, blasfemavam e o grupo que se posicionava a correr atrás da velha roda aumentava gradativamente. Procurava por olhares de alguém que demonstrasse serenidade naquele dia, mas todos pareciam estar em transe. Encontrei uma praça para observar melhor a situação, ela estava lotada. Havia lixo por toda a parte, galhos jogados no chão, gritos, xingamentos, brigas. Sentei no que restara de um banco de cimento e fiquei observando a sujeira do chão, o vento levando aqueles restos de um lado para o outro. Esqueci que estava naquele lugar miserável.

'Você tem que sair daqui. ' Disse uma pessoa colocando a mão no meu ombro 'Siga-me'. Eu fui. Que mais poderia fazer? Ele me guiou até a entrada de uma casa ' Ficará segura aqui. Confie. Vou procurar por outras pessoas desligadas. '

A casa não era velha, mas também não era exemplo de modernidade. Havia um pequeno jardim com grades de até 1,50, as paredes eram cinza e a porta parecia ser extremamente resistente, não dava para ver absolutamente nada que ocorria lá dentro observando de fora, apesar de ter duas janelas elas pareciam dois olhos negros dispostos a observar. Uma mulher magra, com saias longas, cabelo castanho e preso abriu a porta. 'Entre' foi o que ela disse. Estava seguindo tais ordens tão facilmente. Havia umas cinco pessoas lá dentro, me observaram calados, pareciam analisar meus passos friamente, até que eu ouço uma voz: ' Pode sentar aqui' eu disse obrigada e imediatamente todas as expressões frias tornaram-se menos densas.

A mulher que havia me atendido sentou-se em uma cadeira próximo do grupo. “Meu nome é Alessandra. Sei que isso está sendo estranho para todos. Ninguém aqui sabe exatamente o motivo por tamanha transformação nos indivíduos, mas tentarei ser o mais breve e explicativa na medida do possível." Ainda bem que eu não era a única que estava apavorada com o estado lamentável que as coisas se encontravam, pensei. Ela respirou por um tempo, bebeu uma água e continuou o discurso "A roda é a ganância frenética, o que impulsiona a vida de milhares. Ontem saiu no jornal que quem a alcançasse seria a pessoa mais poderosa de todo o mundo, pois ela está misteriosamente ligada com o surgimento do ser humano. Ninguém sabe ao certo o que acontece. Mas milhares a seguem atrás de seu poder, e nenhum ser humano conseguiu capturá-la, já circulou dois continentes. Há vários corpos mortos espalhados pelas estradas. Pessoas morrem, matam, gritam e julgam os outros. Deixam tudo para seguir aquele objeto." Caíram algumas lágrimas dos seus olhos... "A mídia está cobrindo tudo euforicamente, mas evita falar da parte negativa, a destruição. Apesar de muitos verem seus semelhantes sumirem de uma hora para outra. Por isso as poucas pessoas que infelizmente estavam na rua naquele momento e que felizmente não foram influenciados pela Hipnose da Roda, é assim como chamamos, estão aqui. Meu marido é quem está encontrando as que se encontram solitárias e desvinculadas dessa tragédia. Há outros grupos espalhados por aí buscando pessoas que chamamos de desligadas, não sabemos o que será de nós. Mas sabemos que todos os impressionados pelo poder do objeto morrem."

Ficamos conversando sobre como cada um parou ali e o que pensamos no momento. Nossas divagações eram muito semelhantes, talvez por isso estejamos juntos, ligados uns aos outros de uma forma extremamente surreal.

A cidade estava silenciosa. O marido de Alessandra entra na casa segurando duas crianças, elas são postas em cadeiras, como todos que estavam ali. Ele foi até o balcão, colocou um copo d’água, bebeu alguns goles e disse "Muitos morreram, há sangue por cidade, creio que poucos sobreviveram... Consegui achar essas duas crianças, espero que muitos desligados não tenham sido mortos pela euforia dos demais, mas há coisas que são inevitáveis."

Esperamos uns dois dias dentro daquela residência para saber o que aconteceria, se poderia haver um novo distúrbio na população... Pelo menos na que sobrou. Não ficamos mais que isso, pois no terceiro dia alguém bateu na porta e um rapaz que se encontrava no grupo foi o primeiro que se pronunciou para abri-la. Havia uma carta. Ele a trouxe em suas mãos magras e leu em voz alta. “Parabéns! Vocês agora sabem o sentido da vida."

Éramos 10 sobreviventes ao total. Encontramos outros grupos de pessoas que ficaram desligadas no momento. Todos haviam recebido aquele bilhete estranho, mas creio que ninguém nunca saberá o que realmente aconteceu e de onde ele surgiu. Também não havia sangue algum pelas ruas, os corpos sumiram. Os desligados que viram o fim da roda comentam que ela simplesmente caiu e virou pó.

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